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a ia aprendeu a executar. mas quem está aprendendo a julgar?

  • Marcos Machado27 de abril de 2026
Custo de executar e custo de verificar Ilustração conceitual: o custo de executar cai até perto de zero, enquanto o custo de verificar continua alto e quase constante. custo de verificar custo de executar tempo
Ilustração conceitual da tese do texto. Não representa dados.

Publicado originalmente no LinkedIn, em 27 de abril de 2026.

Ver o original no LinkedIn Artigo citado (arXiv)

Me considero uma pessoa curiosa, estou sempre lendo, buscando observar o mundo e seus impactos sob a lente de outras pessoas mais inteligentes do que eu. Recentemente, conheci o livro O Almanaque de Naval Ravikant (que recomendo a leitura), e em dada parte do livro o Naval define o julgamento como a capacidade de saber as consequências a longo prazo das suas ações. Ele argumenta que, em uma era de alavancagem (capital, código e mídia), o julgamento é o ativo mais valioso de um profissional.

O julgamento é saber a consequência a longo prazo das suas ações. Em uma era de alavancagem, o julgamento é tudo.

Naval Ravikant, em O Almanaque de Naval Ravikant

Essa frase ficou rodando na minha cabeça por dias. E voltou com força quando li o artigo “Some Simple Economics of AGI”, publicado em fevereiro deste ano por pesquisadores do MIT, WashU e UCLA.

A tese é provocadora: a IA não está só automatizando tarefas repetitivas. Ela está absorvendo todo trabalho que pode ser medido, inclusive boa parte do que a gente considerava analítico, criativo e estratégico. O custo de executar caminha para zero. Já o custo de verificar, ou seja, a capacidade humana de validar, julgar e se responsabilizar pelo resultado, continua limitado pelo nosso tempo e pela experiência acumulada.

Nesse cenário, o recurso mais escasso do mundo passa a ser exatamente o que o Naval chama de julgamento.

E é aqui que mora o problema que, ao que parece, está só começando.

Os autores descrevem dois fenômenos que andam juntos. O primeiro é o “Ciclo Perdido dos Juniores”: as portas de entrada estão se fechando, porque as tarefas que antes serviam de degrau de aprendizado agora são executadas por agentes. O segundo é a “Maldição do Codificador”: profissionais sêniores, muitas vezes sem perceber, estão treinando modelos que tornam sua experiência reproduzível em escala.

  1. Ciclo Perdido dos Juniores

    As portas de entrada se fecham: o que era degrau de aprendizado agora é executado por agentes.

  2. Maldição do Codificador

    Sêniores, sem perceber, treinam modelos que reproduzem sua experiência em escala.

A conta é simples e desconfortável. Se ninguém entra, ninguém forma julgamento. Se ninguém forma julgamento, em alguns anos faltará gente capaz de verificar o que essas máquinas produzem. Os autores chamam o desfecho desse caminho de “Economia Oca”: muito resultado visível, pouca consciência humana sobre o que de fato está sendo entregue.

Mas eles também apontam saídas. E é aqui que fico otimista.

A primeira é a prática sintética: ambientes de simulação onde um jovem pode treinar decisão, contexto e responsabilidade em ritmo acelerado, sem depender só da escada tradicional de carreira. A segunda é deslocar o foco do “executar” para o “direcionar e validar”: formar profissionais que saibam definir a intenção, avaliar o resultado e assumir a consequência. A terceira é olhar com seriedade para o trabalho não mensurável: confiança, conexão humana, coordenação. Tudo aquilo que a métrica não captura, mas que a vida prática exige todos os dias.

  1. Prática sintética

    Simulações para treinar decisão, contexto e responsabilidade em ritmo acelerado.

  2. Direcionar e validar

    Definir a intenção, avaliar o resultado e assumir a consequência.

  3. O que não se mede

    Confiança, conexão humana e coordenação: o que a métrica não captura.

No fundo, é o conselho do Naval traduzido para a próxima década. Numa era em que a execução virou commodity, o julgamento é o que sobra como diferencial real. E julgamento se constrói com prática, erro e contato com problemas de verdade, não com curso passivo.

No fim, tenho algumas perguntas:

  • Você acredita que as empresas estão fazendo a sua parte na formação dos juniores nessa transição?
  • Ou estamos empurrando esse problema para o futuro?
  • Quem está olhando para os novos profissionais entrando no mercado?
  • Se ninguém está, por quê não?

Se tiver interesse em ler o artigo citado na íntegra, você pode visualizá-lo aqui.

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