Me considero uma pessoa curiosa, estou sempre lendo, buscando observar o mundo e seus impactos sob a lente de outras pessoas mais inteligentes do que eu. Recentemente, conheci o livro O Almanaque de Naval Ravikant (que recomendo a leitura), e em dada parte do livro o Naval define o julgamento como a capacidade de saber as consequências a longo prazo das suas ações. Ele argumenta que, em uma era de alavancagem (capital, código e mídia), o julgamento é o ativo mais valioso de um profissional.
O julgamento é saber a consequência a longo prazo das suas ações. Em uma era de alavancagem, o julgamento é tudo.
Essa frase ficou rodando na minha cabeça por dias. E voltou com força quando li o artigo “Some Simple Economics of AGI”, publicado em fevereiro deste ano por pesquisadores do MIT, WashU e UCLA.
A tese é provocadora: a IA não está só automatizando tarefas repetitivas. Ela está absorvendo todo trabalho que pode ser medido, inclusive boa parte do que a gente considerava analítico, criativo e estratégico. O custo de executar caminha para zero. Já o custo de verificar, ou seja, a capacidade humana de validar, julgar e se responsabilizar pelo resultado, continua limitado pelo nosso tempo e pela experiência acumulada.
Nesse cenário, o recurso mais escasso do mundo passa a ser exatamente o que o Naval chama de julgamento.
E é aqui que mora o problema que, ao que parece, está só começando.
Os autores descrevem dois fenômenos que andam juntos. O primeiro é o “Ciclo Perdido dos Juniores”: as portas de entrada estão se fechando, porque as tarefas que antes serviam de degrau de aprendizado agora são executadas por agentes. O segundo é a “Maldição do Codificador”: profissionais sêniores, muitas vezes sem perceber, estão treinando modelos que tornam sua experiência reproduzível em escala.
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Ciclo Perdido dos Juniores
As portas de entrada se fecham: o que era degrau de aprendizado agora é executado por agentes.
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Maldição do Codificador
Sêniores, sem perceber, treinam modelos que reproduzem sua experiência em escala.
A conta é simples e desconfortável. Se ninguém entra, ninguém forma julgamento. Se ninguém forma julgamento, em alguns anos faltará gente capaz de verificar o que essas máquinas produzem. Os autores chamam o desfecho desse caminho de “Economia Oca”: muito resultado visível, pouca consciência humana sobre o que de fato está sendo entregue.
Mas eles também apontam saídas. E é aqui que fico otimista.
A primeira é a prática sintética: ambientes de simulação onde um jovem pode treinar decisão, contexto e responsabilidade em ritmo acelerado, sem depender só da escada tradicional de carreira. A segunda é deslocar o foco do “executar” para o “direcionar e validar”: formar profissionais que saibam definir a intenção, avaliar o resultado e assumir a consequência. A terceira é olhar com seriedade para o trabalho não mensurável: confiança, conexão humana, coordenação. Tudo aquilo que a métrica não captura, mas que a vida prática exige todos os dias.
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Prática sintética
Simulações para treinar decisão, contexto e responsabilidade em ritmo acelerado.
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Direcionar e validar
Definir a intenção, avaliar o resultado e assumir a consequência.
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O que não se mede
Confiança, conexão humana e coordenação: o que a métrica não captura.
No fundo, é o conselho do Naval traduzido para a próxima década. Numa era em que a execução virou commodity, o julgamento é o que sobra como diferencial real. E julgamento se constrói com prática, erro e contato com problemas de verdade, não com curso passivo.
No fim, tenho algumas perguntas:
- Você acredita que as empresas estão fazendo a sua parte na formação dos juniores nessa transição?
- Ou estamos empurrando esse problema para o futuro?
- Quem está olhando para os novos profissionais entrando no mercado?
- Se ninguém está, por quê não?
Se tiver interesse em ler o artigo citado na íntegra, você pode visualizá-lo aqui.